segunda-feira, dezembro 02, 2013

MUNDO: Ucrânia, mais uma vez dividida

Por Cristiano Alves

Cartaz popular nas redes sociais mostrando um ucraniano típico dividido entre o ocidente(UE) e a Rússia


A divisão da Ucrânia não é nenhuma novidade. Embora Kiev tenha sido o ponto de partida para o que hoje se conhece por Rússia, durante muitos anos parte do país esteve ocupada por tártaros, cavaleiros teutônicos, poloneses, turcos e austro-húngaros. 

Dividida entre impérios, a Ucrânia sobreviveu com o surgimento do Grão-Ducado de Moscou, a região formada por emigrados da Rússia de Kiev(até então "Rússia" designava o território da Ucrânia e do ocidente da atual Rússia), chamada de Moscóvia, reivindicou o título de "Rússia", autoproclamando-se a "Terceira Roma" com o seu "tzar"(termo oriundo de "Caesar", do Império Romano). A importância da Rússia para a sobrevivência do que hoje se conhece por Ucrânia está bem exposta no romance do historiador e escritor ucraniano Nikolay Gógol, "Taras Bulba", que retrata um cossaco da região de Zaporojye que combate os invasores turcos e principalmente os poloneses. No romance, os cossacos morrem pela "Rússia", um ideal perseguido por eles, e ao final, o velho cossaco, queimado vivo por seus captores poloneses, clama que "na Rússia já se ergue um tzar, e não haverá no mundo poder capaz de pará-lo".


Por muitos anos a Ucrânia foi uma mera região russa, a incorporação, pelo Império Russo, de países como a Polônia, trouxe de volta à Ucrânia territórios que por centenas de anos desenvolveram-se isoladamente e absolveram vários aspectos culturais e linguísticos. Com a derrota do Império Russo na primeira grande guerra, partes do país caíram sob a tutela alemã, que tentou formar na região um Estado fantoche, mas com a derrota alemã, a região ficou sob tutela polonesa, até o Estado Polonês cair em 1939 e a região ser incorporada à República Socialista Soviética da Ucrânia, Estado membro da União Soviética, surgido nos anos 20. Pela primeira o povo ucraniano era unificado sob a égide de um Estado nacional. O que parecia estar solucionado apenas começava, com a invasão nazista em 1941, uma pequena parcela dos ucranianos, particularmente aqueles sob a liderança de Stepan Bandera e Andriy Melnik, receberiam de braços abertos os nazistas, que estabeleceriam um novo protetorado na região conhecida por "Halychina"(traduzida como Galícia). Nesta região as tropas de Bandera promoveriam o mais intenso terror contra comunistas, russos, poloneses, tchecos e mesmo contra ucranianos que não aceitassem se submeter à sua causa. Fotos do arquivo de Estado da Polônia, país capitalista conhecido por sua postura anticomunista e antissoviética, revelam fotos de crianças torturadas e mortas com arame farpado, cidadãos pacíficos mortos com um prego inserido em seu crânio a marteladas, além de limpeza étnica e mutilações de civis. Segundo fontes bielorrussas, a OUN-UPA, exército ucraniano de colaboracionistas do nazismo, teriam sido responsáveis pelo massacre de Hatyn, em Belarus, onde toda a população local foi reunida numa igreja e queimada viva, tragédia descrita no filme de Elen Klimov "Vá e veja".

Comício banderista ucraniano, com as fotos de Hitler e Stepan Bandera em destaque

Com a derrota das tropas nazistas, os remanescentes da OUN-UPA ou se renderam ou passaram a combater os comunistas nos Cárpatos, onde foram caçados e supostamente exterminados pelo NKVD. Embora derrotados militarmente, mesmo sem representar a maioria do povo ucraniano, os banderistas ganharam novamente voz com o advento da Perestroyka, com o fim da URSS(cuja continuidade foi aprovada pelo povo ucraniano no famoso referendo de Harkov), o banderismo tornou-se a opção natural dos ladrões e mafiosos ucranianos que tomaram conta do país após a queda do sistema socialista. Sua ideologia consiste na demonização do período soviético, na exaltação de traidores nacionais como Stepan Mazepa, que traiu os cossacos em favor do Rei da Suécia e do Sultão da Turquia; de Stepan Bandera, já descrito aqui; e de Roman Shuhyevich, o comandante do Batalhão Rossygnol, unidade da Waffen SS formada por ucranianos. Essa ideologia burguesa e filofascista travestida de patriótica sempre foi o sustentáculo ideológico da burguesia ucraniana junto ao mito do Holodomor, suposto genocídio de ucranianos pelos comunistas(outras versões falam em russos, outras em judeus, em realidade mais um ciclo de fome da história ucraniana agravado pela seca, tifo e pela luta de classes pela coletivização da agricultura, que pôs fim aos ciclos de fome.

A despeito de elementos reacionários, revanchistas e pró-ocidentais, a verdade é que por muitos anos o povo ucraniano foi oprimido pela burguesia de diversos povos, principalmente poloneses, alemães, turcos e russos. Os interesses neocoloniais da burguesia russa, o seu modelo corrupto e imperialista, leva grande parte do povo da Ucrânia a enxergar com hostilidade uma aproximação com a Rússia, de modo que muitos mesmo acreditam que fazer a opção pela UE ou pela Rússia são posições equivalentes. Outra parte, entretanto, a clientela das grandes multinacionais ocidentais, acredita que a UE é o melhor caminho, mas será mesmo?

Ora, não é preciso ser vidente para saber o que será da Ucrânia se esta entrar na UE, basta olhar para o que acontece aos gregos, croatas, romenos e búlgaros. A incorporação da Ucrânia à UE seria um preço muito alto a ser pago pelo povo, inclusive da União Europeia, todavia seria de enorme lucratividade para os capitalistas da Europa Ocidental, que teriam acesso a mais mão-de-obra barata, e um grande passo do imperialismo ocidental em direção à Rússia, que apesar de seus erros é um ponto de equilíbrio na segurança internacional, e a sua intervenção na guerra civil na Síria é uma prova disso. O que o governo pró-ocidental de Viktor Yushenko, por exemplo, fez em favor da paz mundial e do equilíbrio na segurança internacional? Ele alinhou-se ao imperialismo americano e mesmo enviou tropas para o Iraque e Afeganistão! Viktor Yanukovitch, atual líder ucraniano, não é um pró-ocidental e está ciente da tragédia política que será para ele ingressar na UE e da tragédia econômica que será fazê-lo.

Taras Bulba, romance de Nikolay Gógol, retrata a luta do povo ucraniano contra os invasores ocidentais em nome da "Santa Rússia" dos "camaradas", ortodoxa e cossaca

"O país"(significado de Ukraína), historicamente dividido entre os que se consideram "russos" e os que se consideram "ucranianos" encontra uma divisão que vai além das barreiras idiomáticas, além das línguas de Pushkin e Shevchenko. Enquanto parte da população vai às ruas exigir o ingresso numa União Europeia que não a deseja, outra parte se levanta contra os pró-ocidentais. A Igreja Ortodoxa Ucraniana clamou por uma marcha contra a "Eurosodomia", contra os valores "imorais e anticristãos do ocidente decadente", milicianos ucranianos concentram-se ao redor de monumentos a Lenin, que viram alvo de manifestantes ocidentais.

Militantes da organização neonazista "Svoboda" usando balaclavas, tonfas, correntes e camuflagem ucraniana. O partido comumente ataca monumentos ucranianos a Lenin e Stalin. Seu símbolo é uma nítida alegoria à suástica nazista.

A Ucrânia está dividida mais uma vez, e caberá ao seu povo e seus líderes lutar para não se tornar mais uma favela da União Europeia! Os protestos em favor da UE contam com os mais reacionários grupos, dentre os quais os banderistas e outros neonazistas fervorosos como os do partido Svoboda(ironicamente, "liberdade", literalmente), um partido conhecido por sua xenofobia e anticomunismo. Um dos ideólogos do partido, Yuriy Myhalchyshym, defende em seus escritos o legado ideológico de Rhöm, Goebbels e Gregor Strasser. A acusação de neonazistas já foi feita por jornais russos, americanos(Global Post), israelenses(Jerusalem Post) e pelo Congresso Internacional Judaico. Para o ideólogo neonazista ucraniano, o Holocausto foi um dos mais brilhantes períodos da história. A vitória dos ocidentalistas da Ucrânia significará por consequência a vitória dos neonazistas em mais um país, após a Hungria e Eslováquia. O "ocidentalização" da Ucrânia representa antes de tudo um aumento da miséria e principalmente uma renazificação da Europa!

2 comentários:

Eduardo Consolo dos Santos disse...

E a entrada da Ucrânia na UE significaria também a realização de um velho sonho nazista, de ter as estepes ucranianas sob seu poder. E já que você falou a respeito da divisão da Ucrânia entre elementos pró-Europa e pró-Rússia Cristiano, eu vejo que na Bielorússia não tem disso (ou se tem não é algo significativo que nem na Ucrânia). E isso mesmo o território bielorusso tendo passado sob domínio lituano (ocidental) dos séculos XIII ao XVIII. Por que será??

José de Miranda disse...

Muito Bom!!! Uma observação, mas que em nada atrapalha a compreensão,no segundo ponto-seguido do terceiro parágrafo, acho que vc ia escrever: "Pela primeira vez o povo ucraniano..." Faltou a palavra "vez". (Y)